Visão e equilíbrio – Via de mão dupla

Equilíbrio Via de mão dupla - capaDançamos, pulamos, corremos, movimentamos nosso corpo nas três dimensões do espaço. Enquanto isso, nossa cabeça permanece relativamente imóvel, desfrutando de certa calmaria. Para o bom funcionamento de nosso organismo, a cabeça é mantida com maior independência dos movimentos do corpo. A cabeça, continuamente requisita informações sobre nossa posição no espaço. O corpo, porém, só participa definitivamente como integrante deste mesmo espaço em virtude do sentido da visão.

Um bom exemplo dessa situação, está no clipe da música Jigsaw Falling Into Place (banda Radiohead).

O sistema visual está conectado aos sensores de posição desde o início de nossa gestação. Intimamente relacionado aos músculos posturais, o sentido da visão tem a tarefa de manter o mundo estável. O que leva aos ajustes necessários nos olhos, na cabeça e na postura para compensar as mudanças no fluxo óptico que acompanham as alterações de movimento.

A visão é fonte direta de informações sobre o próprio corpo e ajuda a ligar nossa imagem ao ambiente que estamos. Podemos nos enxergar no espaço e calibrar continuamente o sistema motor. Esse aspecto perceptivo contribui para a construção da própria imagem.

 

Pela janela do carro, o movimento coexiste com o equilíbrio

Pela janela do carro, o movimento coexiste com o equilíbrio

A interpretação das informações visuais sobre o movimento no espaçovisão conscientefornece dados de como o corpo se relaciona com o ambiente. Desta maneira, educa o corpo, desempenhando forte papel postural. Com frequência, a propriocepção visual se sobrepõe ao sistema vestibular e leva a um senso de movimento equivocado. Exemplo disso, quando você está parado no trânsito e o carro ao lado começa um movimento a frente, você tem a súbita impressão que seu carro está se movendo em marcha ré.

As informações recebidas dos órgãos dos sentidos e interpretadas à luz da consciência sofrem interferência da própria consciência. É fácil constatar a dificuldade que sentimos em nos concentrar quando estamos preocupados, agitados ou assustados. Nestas condições, deixamos de ouvir alguém que nos fala diretamente, não enxergamos um objeto à nossa frente e sofremos os reflexos posturais desta situação.

Se por um lado, o movimento é influenciado pela consciência e pelas emoções, por outro lado, definirá a maneira como nos tornamos conscientes de nós mesmos. Contribuirá não apenas para organizar o desenvolvimento das estruturas neurais (nossa ação motora), mas também, ajudará na forma como nos comunicamos com os outros e nos relacionamos com o ambiente. A “corporificação molda a mente” (Shaun Gallagher, 2005) e pode tornar-se forte aliado na reversão de um processo de déficit de atenção ou distração, por exemplo.

Equilíbrio Via de mão dupla - 1A interferência de nossa visão sobre nossa postura é óbvia. Para manter o equilíbrio, buscamos continuamente pontos referência no ambiente. Assim, podemos ancorar nosso olhar.  Durante a execução de posturas de equilíbrio na Yoga (ardha-chandrasana, vriksasana ou virabhadrasana III), evidenciamos a dependência da estabilidade óptica no equilíbrio postural. Assim como, diminuímos a influência da concentração na manutenção destas posturas.  Funciona como uma mão de via dupla, a execução destas posturas exigirá que deixemos de lado toda a série de estímulos capazes de interferir na realização destas posturas, selecionando e aperfeiçoando nossa capacidade de focar.

Qualquer parte do corpo pode ser trazida à luz da consciência. Também, pode deixar de depender de nossa intervenção para  seu funcionamento. O corpo começa a trabalhar sozinho, mantendo a postura e governando os movimentos com base nas inúmeras fontes de informação. Assim, uma pessoa normal e saudável poderá esquecer-se de seu corpo durante boa parte de sua rotina diária. O corpo cuida de si mesmo e, desta maneira, libera o sujeito para que, com facilidade, dedique-se a outros aspectos práticos de sua vida.

Namastê.

 

Anúncios

A riqueza de movimentos disponíveis

 Desenvolvendo nossa conduta motora

Todos nós temos um potencial latente que não é desenvolvido por completo. Acumulado por causa do esgotamento de sistemas mais econômicos e confortáveis. De maneira geral, apoiamos nosso desenvolvimento sobre estruturas mais convenientes, repetindo padrões de movimento. Algo que leva à exaustão.

Riqueza de movimentos - escalada 4

No caminho da ação, podemos nos perder nos enganos. Tudo sem contar com a riqueza de movimentos disponíveis. Nossa conduta motora está dominada por atividades automáticas, que acabam sendo executadas de forma inconsciente. Isso pode ainda, ser reforçado e consolidado pelo tempo.

Sulcos na cabeça do úmero evidenciam desgaste em função dos tendões que cruzam a articulação

Sulcos na cabeça do úmero evidenciam desgaste em função dos tendões que cruzam a articulação

Muitas vezes, um movimento não é deturpado durante sua realização, mas em sua concepção. Por não participar de nosso cotidiano, determinado movimento, simplesmente não é praticado e, portanto, a chance de realizá-lo é nula.

Riqueza de movimentos - escalada 1O desenvolvimento do potencial motor passa, necessariamente, pelo aumento de seu repertório.     

Atividades físicas que exploram a riqueza e a diversidade de movimentos, não são garantias de alteração na maneira como respondemos aos desafios propostos. Tampouco, uma mudança nos padrões adquiridos. Sem a nossa intervenção deliberada, percorreremos sempre o mesmo atalho, ainda que de maneiras diferentes e de acordo com a natureza da atividade física proposta.

Trilhar um caminho realmente diferente e sem obstruções, requer disciplina para abrir uma picada em meio a padrões consolidados e enfrentar percursos mais longos e tortuosos.

Riqueza de movimentos - escalada 2O desenvolvimento motor tem início pela estabilização da cabeça, do tronco e dos membros, seguindo uma direção cervico-caudal. Mas a aprendizagem de movimentos coordenados, segue o caminho inverso: das extremidades do corpo em direção à cabeça.

Desde nosso desenvolvimento embrionário, a posição da cabeça influi no movimento total do corpo. Virar a cabeça para o lado e olhar um objeto leva imediatamente o pescoço, os ombros e o tronco na mesma direção. Quando agarramos o objeto, são os dedos das mãos que irão recrutar cotovelos, ombros e tronco para movimentá-lo. O caminho de ida é diferente do caminho de volta.

O movimento irradiado a partir das extremidades do corpo, onde estruturas delicadas contam com grande mobilidade e precisão, interfere na organização de estruturas mais fortes, responsáveis pela manutenção postural.

Charles Sherrington - Nobel Fisiologia 1932

Charles Sherrington – Nobel Fisiologia 1932

“Dispositivos complexos como as mãos e os pés, reorganizam o movimento global do corpo. Conectam-se as unidades de transição como os ombros, quadris e escápulas, promovendo mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o espaço. A propagação de um movimento voluntário para outro, não é algo causal e segue um padrão específico dos grupos musculares” Charles Sherrington

A inclusão das extremidades do corpo, no aumento do repertório somático, possibilita a aprendizagem de movimentos antes desconhecidos. Só então, com uma atividade física que explore a riqueza de movimentos, poderão ser feitas mudanças de fato.

Visão e equilíbrio – Via de mão dupla

Dançamos, pulamos, corremos, movimentamos nosso corpo nas três dimensões do espaço. Enquanto isso, nossa cabeça permanece relativamente imóvel, desfrutando de certa calmaria. Para o bom funcionamento de nosso organismo, a cabeça é mantida com maior independência dos movimentos do corpo. A cabeça, continuamente requisita informações sobre nossa posição no espaço. O corpo, porém, só participa definitivamente como integrante deste mesmo espaço em virtude do sentido da visão. Um bom exemplo dessa situação, está no clipe da música Jigsaw Falling Into Place (banda Radiohead). Clique aqui no link:

  

O sistema visual está conectado aos sensores de posição desde o início de nossa gestação. Intimamente relacionado aos músculos posturais, o sentido da visão tem a tarefa de manter o mundo estável. O que leva aos ajustes necessários nos olhos, na cabeça e na postura para compensar as mudanças no fluxo óptico que acompanham as alterações de movimento. A visão é fonte direta de informações sobre o próprio corpo e ajuda a ligar nossa imagem ao ambiente que estamos. Podemos nos enxergar no espaço e calibrar continuamente o sistema motor. Esse aspecto perceptivo contribui para a construção da própria imagem.

Equilíbrio Via de mão dupla - pela janela do carroA interpretação das informações visuais sobre o movimento no espaçovisão conscientefornece dados de como o corpo se relaciona com o ambiente. Desta maneira, educa o corpo, desempenhando forte papel postural. Com frequência, a propriocepção visual se sobrepõe ao sistema vestibular e leva a um senso de movimento equivocado. Exemplo disso, quando você está parado no trânsito e o carro ao lado começa um movimento a frente, você tem a súbita impressão que seu carro está se movendo em marcha ré. As informações recebidas dos órgãos dos sentidos e interpretadas à luz da consciência sofrem interferência da própria consciência. É fácil constatar a dificuldade que sentimos em nos concentrar quando estamos preocupados, agitados ou assustados. Nestas condições, deixamos de ouvir alguém que nos fala diretamente, não enxergamos um objeto à nossa frente e sofremos os reflexos posturais desta situação. Se por um lado, o movimento é influenciado pela consciência e pelas emoções, por outro lado, definirá a maneira como nos tornamos conscientes de nós mesmos. Contribuirá não apenas para organizar o desenvolvimento das estruturas neurais (nossa ação motora), mas também, ajudará na forma como nos comunicamos com os outros e nos relacionamos com o ambiente. A “corporificação molda a mente” (Shaun Gallagher, 2005) e pode tornar-se forte aliado na reversão de um processo de déficit de atenção ou distração, por exemplo. Equilíbrio Via de mão dupla - 1A interferência de nossa visão sobre nossa postura é óbvia. Para manter o equilíbrio, buscamos continuamente pontos referência no ambiente. Assim, podemos ancorar nosso olhar.  Durante a execução de posturas de equilíbrio na Yoga (ardha-chandrasana, vriksasana ou virabhadrasana III), evidenciamos a dependência da estabilidade óptica no equilíbrio postural. Assim como, diminuímos a influência da concentração na manutenção destas posturas.  Funciona como uma mão de via dupla, a execução destas posturas exigirá que deixemos de lado toda a série de estímulos capazes de interferir na realização destas posturas, selecionando e aperfeiçoando nossa capacidade de focar. Qualquer parte do corpo pode ser trazida à luz da consciência. Também, pode deixar de depender de nossa intervenção para  seu funcionamento. O corpo começa a trabalhar sozinho, mantendo a postura e governando os movimentos com base nas inúmeras fontes de informação. Assim, uma pessoa normal e saudável poderá esquecer-se de seu corpo durante boa parte de sua rotina diária. O corpo cuida de si mesmo e, desta maneira, libera o sujeito para que, com facilidade, dedique-se a outros aspectos práticos de sua vida.

Abalos Sísmicos

“Refinamento é inevitável quando você mede um fenômeno por um longo período de tempo” – Charles Francis Rischter

William Cheselden, Osteographia 1733

William Cheselden, Osteographia 1733

As mudanças estruturais não nascem do alongamento intenso, exigido para explorar o movimento em toda sua amplitude, ou da energia gasta para levantar grande quantidade de peso. Transformações de fato têm seu lugar nos níveis mais profundos do corpo, onde reside o início de toda ação.

Sobrevive na origem do movimento a postura nuclear, onde o menor abalo engendra mudanças exponenciais por todo o corpo. São as alterações na raiz da ação aquelas que, antes de qualquer outra, respondem aos desafios impostos pela vontade e carregam em si a gênese da mudança.

Cada músculo do corpo guarda profunda, identidade com o trabalho para o qual foi designado. Carrega uma missão, uma incumbência que evidencia sua especificidade. Recrutar músculos superficiais para assumir funções posturais, ou atribuir a músculos posturais e profundos a responsabilidade pelo levantamento de peso, por exemplo, podem ser erros caros ao corpo. Além do elevado custo energético e do desgaste precoce que esta perspectiva promove.

Postura de apoio unipodal (vriksasana). Atividade assimétrica na musculatura lombar

Postura de apoio unipodal (vriksasana). Atividade assimétrica na musculatura lombar

 “Trabalhar a postura” significa, trabalhar posturalmente. Para acessar o eixo em torno do qual se desenrola o movimento, é preciso buscar o equilíbrio inerente a sua estrutura e enfatizar a estabilidade no cerne da ação.

Desta maneira, “como fazer” tem primazia sobre “o que fazer”. Os predicados da força – e não a força em si – têm o poder para promover e perpetuar mudanças.

A mobilização simultânea de articulações e músculos em múltiplos planos – e não a ação de um músculo isolado em um plano único do movimento – evidencia o denominador comum a toda ação. Integra todo o corpo em torno do próprio eixo ao invés de desagregá-lo.

A constância, a continuidade e a virtual imobilidade que constituem o equilíbrio postural. Indicam que a ênfase no tempo de permanência, muito mais que nas séries de repetição, cria as condições de acesso necessárias aos padrões posturais.

Postura invertida de apoio sobre os ombros (salamba sarvangasana).  Análise da atividade muscular (EMG) da região lombar

Postura invertida de apoio sobre os ombros (salamba sarvangasana). Análise da atividade muscular (EMG) da região lombar

A atividade muscular não diminui devido à imobilidade do corpo, mas em resposta à melhora do equilíbrio postural. Em desequilíbrio, o corpo recruta grande quantidade de força para manter a estabilidade. Se fraco, debruça-se sobre a própria estrutura para evitar o colapso. Equilíbrio e força expressam-se inversamente no corpo: a ausência de um, aumenta a dependência do outro.

A sintaxe entre o movimento e sua estrutura instala-se quando os ruídos e maneirismos do corpo se dissipam à luz do detalhe e do respeito à singularidade do indivíduo. Uma atividade física suave pode ser tão palatável quanto inócua. Se extenuante, tão cansativa quanto estúpida.

Grandezas inversas no corpo, força e equilíbrio requerem, enfim, a intervenção da inteligência para sua simbiose.

A atenção voltada ao movimento – e não para fora dele – lança as bases para o aprendizado psicossomático: chave para a sintonia fina entre conteúdo e expressão, motor de mudanças profundas e definitivas.

Sinal EMG bruto do longuíssimo do dorso em salamba sarvangasana

Sinal EMG bruto do longuíssimo do dorso em salamba sarvangasana

Coreografia da Pedra

“Em um ponto fixo de um mundo em movimento, não há carne nem alma; Não há para onde ir nem de onde vir; em um ponto fixo a dança existe. Nem descanso ou movimento. E não chame fixo de inflexível. Onde o passado e o futuro se encontram. Nem avanço ou retrocesso. Nem ascensão ou declínio. Se não fosse pelo ponto, o ponto fixo, não haveria dança, e só há dança.”

Four Quartets, excerto da Burnt Norton, T.S. Eliot.

Equilíbrio denota um ponto imóvel, que não oscila e jaz estável, resultante de forças que se anulam. Desequilíbrio assinala o movimento, aponta o colapso da harmonia e a organização do caos, anuncia o por vir e expressa o ímpeto da existência.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs.

Sequências de Eadweard Muybridge, em The Human and Animal Locomotion Photographs.

O equilíbrio é uma abstração do olhar e serve à inteligência, saciando nossa compulsão por organizar o mundo. Ângulos retos, contornos definidos, linhas paralelas, círculos concêntricos, nada disso relaciona-se com o real ou diz respeito acerca da natureza das coisas, serve apenas à simplificação, separação e captura da vida para posterior análise.

Apenas um mundo absolutamente inócuo, estéril e asséptico poderia ser traduzido matematicamente pelas leis que governam as partículas e os campos de força. A realidade é imprecisa, é indômita, é areia que nos escapa entre os dedos das mãos quanto mais cerramos os punhos. A concepção científica de mundo é indispensável para livrar-nos da ilusão do subjetivismo e democratizar o conhecimento, mas não esgota a realidade e deve conservar seu status de teoria.

A Suíte para violoncelo de Bach, por exemplo, pode ser descrita pelo comportamento típico de ondas mecânicas, mas a descrição do comportamento das ondas nunca poderá expressar a emoção que dá vida à Suíte. É nosso corpo, enfim, o receptáculo que capta os sinais do meio, liga os pontos, e confere a dimensão do real a tudo o que existe.

Vídeo: Kazuo Ohno – The Written Face

 

Capa da revista A1, por Dave Mckean

Capa da revista A1, por Dave Mckean

Determinados pelo corpo no espaço, não dispomos de visão panorâmica sobre as coisas. Esta é nossa sina: instaurados na mesma dimensão de tudo que enxergamos, não nos resta saída além de lançar mão da lógica, do método, do bisturi e da pinça a fim de nos aproximarmos do real.

Tomar o abstrato pelo concreto, a ilusão pelo real, a linha reta pelo horizonte, entretanto, é expressão de nossa prepotência e nada tem a ver com ciência. Emboscar o corpo no plano cartesiano na tentativa de entendê-lo extirpa-lhe precisamente aquilo que lhe dá vida: a emoção. Avaliar o corpo em tais circunstâncias nos ensina muito a respeito do cadáver e muito pouco a respeito do corpo vivo em movimento.

Em laboratório, excluímos o desvio em torno da média e descartamos na cuba informações indispensáveis ao entendimento do todo. Esquecemos, sobretudo, que o corpo não é um organismo extrínseco a ser possuído, dominado e corrigido.

Não temos um corpo, somos um corpo.

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Grid chart para análise e diagnóstico postural

Na aparente imobilidade de uma postura de yoga, por exemplo, o corpo responde sempre de maneira assertiva e a validade da resposta dependerá da própria capacidade em integrar e alinhar suas dimensões estruturais e emocionais. 

Como um único fotograma extraído de um filme, o ásana alia o movimento da vida à imobilidade tão cara a nosso olhar analítico, expondo como o organismo vivo se relaciona com o espaço.

Neste contexto, o corpo não apresenta ‘problemas’, mas ‘soluções’ para os problemas que se lhe apresentam. O praticante de yoga, alijado pela ficção do eu-dividido, reconstrói-se em busca da unidade.