Para que serve o ócio criativo

Ocio Criativo - capaComo você se sente em seu trabalho? Em sua casa? Com suas atividades? Com você mesmo? Se a resposta não lhe agrada, quais são as possibilidades de modificar isso?

É corrente a ideia que defende o ócio como fundamental à filosofa: “pensar requer ócio”; qual seria o conceito de ócio presente nessa ideia? Desde os primórdios da formação das sociedades complexas, trabalho braçal e trabalho intelectual são divididos, sendo predominante a atribuição do trabalho pesado às classes menos privilegiadas, consideradas, em algumas sociedades, como inferiores. Aos privilegiados, o trabalho intelectual, o ocupar-se com as artes, as ciências, o governo, o lazer.

Na Grécia Antiga, a sociedade era dividida entre cidadãos, não-cidadãos e escravos. Os não-cidadãos e escravos eram considerados inferiores, cabendo-lhes tarefas braçais, tidas como indignas para os cidadãos. Com herança na tradição grega, os romanos denominaram ócio (otium) as ocupações com o trabalho intelectual, em oposição ao negócio (nec-otium, negação do otium), destinado a atender às necessidades de subsistência da sociedade. A dedicação ao ócio era, nessas sociedades, a atividade própria do ser humano, embora poucos tivessem acesso a ela.

Ócio: 1. Descanso do trabalho, folga, repouso; 2. Tempo que se passa desocupado; vagar, quietação, lazer, ociosidade; 3. Falta de trabalho; desocupação, inação, ociosidade; 4. Preguiça, indolência, moleza, mandriice, ociosidade; 5. Trabalho mental ou ocupação suave, agradável” (Verbete do Dicionário Aurélio).

Ocio criativo - tendo ideias Relógio moral

A sociedade capitalista passa a exigir a ampliação dos negócios, nascendo uma classe burguesa mais habituada a trabalhar. O trabalhador vende sua força de trabalho, e institui-se a moral do trabalho produtivo. Isso gera no ser humano uma espécie de “relógio moral”, que mostra ser preciso dedicar-se a um trabalho, que se transforme em mercadoria e traga lucros. O trabalho intelectual, anteriormente valorizado, passa a ser indigno; o ócio, antes necessário, passa a ser motivo de exclusão social.

Atualmente, o trabalho intelectual também é medido por produção: números, quantidade de artigos publicados, quantidade de obras de arte compostas, quantidade de pesquisas desenvolvidas. Ainda há instituições que contratam por horas de trabalho, exigindo e controlando a presença e a atividade de seus “colaboradores”.

Seu dia parece que só terminara quando você conseguir preencher todos os relatórios e planilhas. Quando atender vinte pacientes, quando visitar trinta clientes ou conseguir fechar dez contratos.

Fica a duvida se ainda conseguimos significar ócio como parte das atividades humanas ou o ócio tornou-se, em oposição a todo e qualquer forma de trabalho.

Relógio interno

Internamente algo parece nos cobrar o tempo todo: o que fiz hoje? É preciso uma grande lista para não ser classificado como inútil, preguiçoso, indolente. O que você vai fazer no final de semana? Dormir. Ou então meu final de semana será repleto de tantas e tantas atividades de lazer que iniciarei a semana com alto grau de estresse.

Muitos aposentados passaram a vida trabalhando e sonhando com a aposentadoria. Logo após os primeiros dias de aposentadoria, entraram em depressão, adoeceram. A sensação de inutilidade, de peso social toma conta de algumas dessas pessoas. Outros, apesar de se sentirem bem com o fato de não necessitarem mais trabalhar diariamente, sentiam-se envergonhados por sua “ociosidade”, ainda que estivessem repletos de atividades de lazer. Outros trouxeram como causa de seu sofrimento o fato de serem “obrigados” pela idade a uma aposentadoria compulsória, apesar de amarem seu trabalho e não saberem viver sem ele.

Ha ainda, alguns empresários bem-sucedidos não se sentem bem, porque não “vivem”, não se dedicam às atividades que lhes trazem prazer. Quantos não foram os casos de depressão nas férias; talvez fosse melhor continuar trabalhando…

Ócio e existência

Atualmente a distinção entre ócio e negócio é extremamente difícil, pois muito do que anteriormente era considerado ócio, tornou-se negócio. Qual o significado poderíamos atribuir ao ócio na atualidade?

Em seu texto Política, Aristóteles afirma que a escravidão somente deixaria de existir quando as ferramentas trabalhassem por si mesmas. O desenvolvimento tecnológico busca a construção de máquinas que trabalhem por si mesmas, para que não precisemos nos dedicar ao trabalho braçal.Contudo, apesar de substituirmos muito do trabalho braçal por atividades executadas por máquinas, não nos preparamos para modificar nossa forma de pensar e de viver.

Por que nos submeter a um trabalho torturante? Por que trabalho, conhecimento e diversão não podem constituir uma única e mesma atividade? Não é preciso trabalhar oito horas, dormir oito horas e ter oito horas de ócio. É preciso incluir, no cotidiano, atividades que reúnam o descanso, o lazer, o trabalho e a aprendizagem.

Ocio criativo - como se forma.001

“Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. Ele acredita que está sempre fazendo as duas coisas ao mesmo tempo”

Domenico de Masi, O Ócio Criativo

*Fonte – site Vya Estelar

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