Aprender a dizer adeus faz bem

Existem momentos na vida que nos leva a conclusão de ciclos. Em diferentes graus, todo ser humano tem dificuldade de colocar o ponto final. É preciso coragem para dizer adeus.

Tiremos a carga negativa que gira em torno da despedida. Por si só, adeus não quer dizer desistência, abandono ou fracasso: essas são interpretações atribuídas por nós mesmos.

Já ouviu falar de ecdise? Trata-se da mudança periódica de casca dos artrópodes. O esqueleto externo, rígido, limita o crescimento. De tempos em tempos, ele deixa a casca velha para formar uma nova e mais folgada. É sua estratégia evolutiva.

Assim também é conosco: as experiências vividas dia a dia vão nos alargando interiormente. Até o instante em que as escolhas antigas tornam-se obsoletas e novas se fazem necessárias mesmo que seja para continuar na trajetória anterior (no casamento, na carreira, naquele modo de viver), mas com outra presença e outros paradigmas.

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Existe hora certa?

Geralmente o fim começa com um forte chamado interior, como se uma parte bastante profunda de você o conduzisse para um rumo um tanto indefinido. “Aos poucos, aquele caminho vai fazendo sentido”, afirma a psicóloga junguiana Regina Nanô, de São Paulo.

“O verdadeiro adeus surge quando a pessoa já entendeu qual é seu destino e refletiu muito a respeito do que precisa se desembaraçar para seguir adiante em seu caminho”, afirma a filósofa Dulce Critelli, professora da PUC de São Paulo. Para ela, a lucidez na finalização de um ciclo indica um importante sinal de maturidade: o indivíduo compreende que é responsável pela própria existência.

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Ganhos, não perdas

O medo da perda dificulta essa tomada de decisão. Especialmente pela constatação de que deixaremos para trás uma parte de nós mesmos, o que fomos para sermos o que somos agora. Junto com toda renúncia há sempre um ganho e um aprendizado, que aos poucos se dão a conhecer. Mas como isso nem sempre é evidente, vem a angústia.

Especialistas comparam o processo de encerramento de um ciclo à experiência do luto. Há o choque inicial, o período de negação ou dúvida e o momento em que sentimentos e sensações misturados (da insegurança à solidão, da confiança a um intenso contentamento) vêm à tona de forma torrencial. Depois, o instante em que o indivíduo se dá conta de que o fato é real e, por fim, a aceitação.

“O adeus acontece desde o instante em que resolvo mudar ou inicio a mudança. Até o momento da ruptura, elaboro o que ganho e o que perco e faço gradativamente as despedidas”, afirma a psicóloga Ingrid Esslinger, do Laboratório de Estudos da Morte da USP. “O luto continua, mesmo depois da decisão concretizada. Por isso, é comum que a pessoa se pegue, tempos mais tarde, chorando de saudade ou questionando se aquela opção foi a melhor.”

A nova etapa inevitavelmente trará surpresas, e aqui reside outro obstáculo freqüente na hora de dizer adeus: o medo do desconhecido, do imprevisível. Sair de uma situação esquematizada, largar um parceiro que já conhece seus defeitos, mudar de ambiente – quem não se apavora diante desta ideia? “O adeus traz uma sensação de caos, mas é importante ter claro que se trata de uma reorganização e não de uma desestruturação”, diz Regina Nanô.

Se você passou boa parte de sua existência vivendo para os outros e sem contato consigo mesmo, o espanto será imenso: quem é essa pessoa? Porém, se aprendeu a respeitar seu dharma (termo hindu que designa nossa natureza autêntica, essa condição singular e única que nos faz ser quem somos), as perdas aparentes serão, na verdade, ganhos.

O dharma não muda. “A necessidade de mudança e de dizer adeus a pessoas e situações indica o quanto estamos nos afastando ou nos aproximando dele”, diz Carlos Eduardo Barbosa, estudioso da Índia e professor de sânscrito em São Paulo. Assim, quanto mais sintonia houver entre seu cotidiano e seu dharma, menos despedidas existirão.

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Fonte: Revista Viver Bem

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